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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

19
Jul17

A SENTIDA VIDA

Talis Andrade

 

 

 

fcogoitia.jpg

 

 

Pensava a vida       

fosse sentida       

na provação       

dos contrários       

 

A dor a tristeza       

intentos necessários       

experimentação       

para o corpo       

sentir a intensidade       

de um desejo         

 

Esperava       

do ensejo       

de um momento feliz       

tirar o provento       

benfazejo         

 

Hoje sei a tristeza       

uma doença de nascença      

Hoje sei a tristeza       

um estado de ser 
 
 
 

13
Jun17

O VERMELHO E O CINZA

Talis Andrade

Carl Heinrich Bloch   The Raising of Lazarus.jpg

 

--

Por longínquo caminho

no silêncio do túmulo            

o que Lázaro viu             

as marcas da cruentação

ou do vermelho enxofre             

no branco linho             

a enfaixar o corpo

 

O que Lázaro viu             

o fúnebre cortejo             

de uma procissão            

de esqueletos             

em dia de finados

O que Lázaro viu             

no infinito campo

embaçadas figuras

como acontece             

ao irmão boi             

resignado à sina             

de pastagens             

em tons cinzas

 

Contenta a Lázaro             

nesta segunda passagem             

tudo recomece             

donde o fio             

da vida se partiu             

ou apenas tem olhos             

para o imaginário             

o que poderia ter sido             

e não foi A intentada             

excitante aventura             

por lendárias terras             

visagem de um mundo             

paradisíaco inatingível               

 

No silêncio do túmulo             

preferiria Lázaro             

a viagem sem volta             

por um túnel de luz             

o corpo arrebatado             

sobre as nuvens             

o corpo vestido de vazio             

o corpo livre             

do amargor da carne               

 

Nesta segunda passagem             

que espera Lázaro             

o açoite da nudez             

de João Batista             

a nudez contida             

em uma vestimenta             

de pêlos de camelo             

o cinto de couro             

em volta dos rins             

garroteando os impulsos             

convulsivos repulsivos               

 

Que espera Lázaro             

o dom da palavra

a língua de fogo

coriscando o ar             

como um raio             

a palavra que incendeia

e queima

a palavra que amaldiçoa             

e fere             

mais afiada             

que o gume             

de uma cica             

 

Que espera Lázaro             

a ofuscante nudez de Davi             

a dançar e cantar             

triunfante ao som             

de harpas e cítaras             

de tamboris e trombetas             

de sistros e síbilos             

pelas ruas de Jerusalém             

para ser ungido rei               

 

Simplesmente seguir             

uma nova vida

em vestes magnificentes             

de púrpura e ouro             

gozar os festins             

o vinho do delírio             

o deleite das dançarinas             

na dança pastoril             

a posse febril             

de um corpo de mulher             

o corpo suave promessa             

de orgasmo e paz               

 

Que deseja Lázaro             

se nenhum livro             

nenhuma carta             

nenhum parente             

nenhum amigo             

jamais registrou             

uma palavra sua               

 

De Lázaro apenas             

se sabe vivia             

com duas irmãs             

e depois de quatro             

dias no túmulo             

aparece Jesus e chama             

- Lázaro             

vem para fora               

 

Jesus ordenou             

Lázaro             

fosse libertado             

das faixas             

e retirado o lenço             

que lhe cobria o rosto  

 

Para todo sempre

as marcas da cruentação

do vermelho enxofre             

no branco linho             

a enfaixar o corpo  

 

Lázaro não estava livre

da morte

De Lázaro o milagre             

de uma segunda vida 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

---

Ilustração: A Ressureiçõ de Lázaro, por Carl Heinrich Bloch 

27
Mai17

EMPEDRADO CORPO

Talis Andrade

         

Insensível como uma pedra       

um urso hibernando

 

Insensível como uma pedra       

um boi ruminando       

paisagens cinzas e capim       

 

não tenho olhos para o vôo de uma borboleta       

não me encanto com o canto de um pássaro       

não farejo o perfume de uma rosa       

a rosa que revelaria o secreto jardim         

 

Sou insensível como uma pedra       

que cobre um cadáver       

em um cemitério clandestino       

 

Em alguma curva da vida       

encruzilhada de despachos       

uma bruxa me transformou em pedra       

Uma pedra que não marca       

nem desmarca       

Simplesmente uma pedra 


 

 

 
 
 


27
Mai17

O CORPO INTERDITO

Talis Andrade

A desdita de me consumir

no não-dito       

na síndrome de pânico

no corpo interdito

 

A desdita de me consumir       

no medo da entrega       

no que poderia advir       

além do muro       

 

que ergui       

entre eu e você       

entre eu e o mundo 
 


24
Mai17

FRIGIDEZ DE DAFNE

Talis Andrade

Daphne_and_Apollo_by_Trixis.jpg

 

 

Insensibilizado corpo

de Dafne  

 

O coração atingido

por uma flecha

uma flecha

com ponta de chumbo  

 

Uma flecha de ponta

rombuda

de envenenado chumbo

frio e invernal  

 

Insensibilizado corpo

insensibilizado coração

Um coração que não ama

um coração que não sangra

bate no peito

de um morto

 

 
 
 
 


15
Mai17

O PARTIDO CORPO

Talis Andrade

Isis.jpg

 

Isis apareça para ajuntar

as oito articulações do meu esqueleto       

espalhadas pelos confins do mundo       

em que os rios secos se transformaram       

nos únicos caminhos

 

Isis costure as nove aberturas do meu corpo

aperte os nós de sutura

modele meu pênis       

com limo e saliva       

 

E pela força dos invisíveis laços       

meu corpo ressurja

indivisível e livre       

meu corpo ressurja

para um vôo de pássaro 


10
Abr17

 O CORPO MEDIDO

Talis Andrade

Cadáver esquisito.jpg 

 

Meu corpo não termina       

nas partes que consigo atingir

      

Meu corpo não termina       

nas partes que você toca       

além do que posso sentir

        

Meu corpo não termina       

nos limites do amor       

o amor que tuas mãos percorrem       

 

Meu corpo não termina       

no corte de pano medido       

para a costura da mortalha         

 

Meu corpo não termina       

no cadáver posto no ataúde

      

Meu corpo se estende       

por desconhecidas terras       

longe das feras       

longe do alcance       

dos carniceiros vermes 

 

Meu corpo não termina       

nas partes que você toca       

além do que posso sentir  
 
 
 


 

---

Ilustração: Cadáver Esquisito, por Héctor Pineda, com a colaboração de James Knowles

 

 

09
Abr17

OS MUROS DE BETSÃ

Talis Andrade

Exibido corpo no palco

para os aplausos os escarros

Corpo suspenso nos muros de Betsã

corpo exposto às moscas

velado corpo no catafalco  

 

Emparedado corpo

não pode sair da tumba

para um solitário chope 


 

 

09
Abr17

OS MORTOS VIVOS

Talis Andrade

Cicero dias.jpg

Mãos como garras

me arrancam as vestes

Sou o desvalido

Um cão perdido

Os confrades fecharam as portas

que não pertenço a nenhum partido

a nenhuma organização secreta

nem ao sindicato do crime  

 

Nenhum conhecido reclama o meu corpo

esquartejado corpo

as vísceras espalhadas

pelos ruas e avenidas

do Recife  

a cidade infame

dos mortos vivos 


 

 

---

Ilustração: Composição com estátua e monstro, por Cicero Dias

05
Abr17

SUEIRA

Talis Andrade

A vida uma encenação

a cada representação

se sinto dor eu vivo  

 

A felicidade uma idealização

do jardim das delícias

o reino encantado de Pasárgada

o faz-de-conta a vida

um conto de fadas  

 

A vida uma encenação

um estropio o corpo

consumido no trabalho

repetitivo e cansativo 


 

Hieronymus_Bosch_ O Jardim das Delícias Terranas.

 Ilustração: O Jardim das Delícias Terrenas, painel central, detailhe,por Jheronimus Bosch 

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