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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

29
Ago17

INFÂNCIA

Talis Andrade

_The_Golden_Days_Balthus..jpg

 

 

 

Menina vamos brincar de boneca

de médico e médica

Ai menina no rito de passagem

na doce aparência da adolescência

vamos aprender o ABC do amor

brincar de se esconder

em encantados esconderijos

 

Ai se a vida fosse uma brincadeira

você não perderia esse jeito de menina

o corpo adolescente em flor

Ai menina não deixe o tempo correr

 

--

Ilustração Balthus

 

 

25
Jun17

O DOTE DE RAQUEL

Talis Andrade

Sete anos

de análise

Sete anos

de freudiana leitura

 

Sete anos

deitado em um divã

vendo a mesma cara

com um imponente

cavanhaque de bode

 

Sete anos de estágio

sete anos de aprendizado

Depois de sete anos

de trabalho escravo

Jacó casou com Lia

supondo fosse Raquel  

 

Sete anos se passaram

Jacó a dormir com Lia

 

Sete anos pareceram

sete dias

pelo muito que Jacó

amava Raquel  

 

Formosa à vista

Raquel transfigurava

o deserto da servidão

em visão sublime

 

 

24
Mai17

FRIGIDEZ DE DAFNE

Talis Andrade

Daphne_and_Apollo_by_Trixis.jpg

 

 

Insensibilizado corpo

de Dafne  

 

O coração atingido

por uma flecha

uma flecha

com ponta de chumbo  

 

Uma flecha de ponta

rombuda

de envenenado chumbo

frio e invernal  

 

Insensibilizado corpo

insensibilizado coração

Um coração que não ama

um coração que não sangra

bate no peito

de um morto

 

 
 
 
 


24
Mai17

SEMPRE PERTO E LONGE

Talis Andrade

 

Qualquer parte       

do meu corpo       

atingida por estranhos       

minha mãe       

lavava com água       

gelo e neve       

Minha mãe       

esterilizava com álcool         

 

Livre dos contágios       

meu corpo       

foi ficando       

frio como o gelo       

puro como a neve              

 

Para continuar imune       

passei a não deixar       

fossem tocadas       

as partes íntimas       

do meu corpo         

 

Fui me distanciando       

me distanciando       

e assim ando       

sempre longe       

de quem amo 
 
 
 
 

10
Abr17

 O CORPO MEDIDO

Talis Andrade

Cadáver esquisito.jpg 

 

Meu corpo não termina       

nas partes que consigo atingir

      

Meu corpo não termina       

nas partes que você toca       

além do que posso sentir

        

Meu corpo não termina       

nos limites do amor       

o amor que tuas mãos percorrem       

 

Meu corpo não termina       

no corte de pano medido       

para a costura da mortalha         

 

Meu corpo não termina       

no cadáver posto no ataúde

      

Meu corpo se estende       

por desconhecidas terras       

longe das feras       

longe do alcance       

dos carniceiros vermes 

 

Meu corpo não termina       

nas partes que você toca       

além do que posso sentir  
 
 
 


 

---

Ilustração: Cadáver Esquisito, por Héctor Pineda, com a colaboração de James Knowles

 

 

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