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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

21
Jan20

GEOPOLÍTICA

Talis Andrade

 

nazism __predrag__srbljanin.jpg

 

 

De quarentena os poetas

que dedilham as cordas do lirismo

poetas anêmicos doentios

chorando nos bares

      as pobres rimas

chorando e gemendo as dores

      de sifilíticos amores

 

Degrada de tua porta

os poetas os profetas

semeadores dos vírus

subversivos

 

Queima os livros

que te desagradam

e degradam a pureza

o idealismo dos jovens

Fecha os jornais

nanicos e derrotistas

 

Leva à execração pública

todos os artistas

efeminadas criaturas

incuráveis parasitas

incapazes de ações guerreiras

incapazes de atos heroicos

indignos de vislumbrarem

mil anos de Reich

 

---

Ilustração Predrag Srbljanin

11
Mai18

Napoleão Bonaparte. A marcha fúnebre (ato 8)

Talis Andrade

A-Retirada-de-Napoleão-de-Moscou_Adolph-Northen-c

 

 

No cruel desterro

destes mares

a carne dilacerada 

as feridas sangrando

revejo os cadáveres 

que alicerçaram

minha passagem

 

Meu espectro passeia

por fileiras e fileiras

de corpos enterrados

nas encruzilhadas

de corpos abandonados

nos campos nevados

 

Na lenta agonia

da cruentação

revejo os corpos

dos meus soldados

 

A carne podre

estrume

adubo da terra

outros soldados

repisarão

 

Funéreo destino

dos exércitos

marcharem

sobre pilhas

de cadáveres

 

 

 

 

 

 ---

A Retirada de Napoleão de Moscou por

Adolph Northen, 1860

11
Mai18

Napoleão Bonaparte. A expiação (ato 6)

Talis Andrade

Horace-Vernet-Napoleon-s-Tomb.jpg

 

 

Neste ermo

último desterro

o forte ensurdecedor

furor das ondas

reverbera nas negras rochas

abafando-me os queixumes

 

No encerro 

destes mares

não há ritual

nem corte

além da morte

 

A rotina cheira

a urina e estrume

da morte os odores

das flores roxas

 

Nenhum disfarce

nos esconde a face

Ninguém perdoa

os perdedores

 

 

 

 

---

"Túmulo de Napoleon", por
Emile Jean Horace Vernet - óleo sobre tela - 54 x 81 cm - 1821 - (The Wallace Collection (London, United Kingdom))

11
Mai18

Napoleão Bonaparte. O poder (ato 4)

Talis Andrade

 

Jean-auguste-dominique-Ingres-Napoleon-as-Jupiter-

 

Os tronos não passam

de meras cadeiras

os assentos forrados de seda

 

A seda do manto real

o manto que protege e cura

a seda que cobre e desnuda

o corpo das cortesãs

a seda que as traças roem

a seda reveste os esquifes

que apodrecem

na terra úmida

 

Os tronos um símbolo

Os tronos não passam

de meras cadeiras

de vetusta madeira

recoberta com reluzentes

lâminas de ouro

 

Um símbolo imposto

que não há poder que perdure

nem a monótona paz

nem a aventura

das ditaduras

 

 

---

"Napoleão como júpiter entronizado", por
Jean Auguste Dominique Ingres - óleo sobre tela - 259 x 162 cm - 1806 - (Musée de l'Armée (Paris, France)

10
Dez17

Napoleão Bonaparte. A Justificação (Ato 2)

Talis Andrade

triomphe-taunay.jpg

 

O sangue derramado             

    nas chacinas

o sangue derramado             

    na guilhotina

o sangue derramado             

    nas batalhas

 

corre pelos rios             

os mares

no nosso chão

e terras conquistadas

nos mais distantes             

lugares  

 

O sangue dos justos             

     e dos inocentes

não mancha

a camisa dos príncipes

a bolsa dos mercadores  

 

Não há sequer vestígios             

de lama

nas botas dos generais 
 
 


 

 

---

Ilustração: O Triunfo da Guilhotina,

por Nicolas-Antoine Taunay

10
Dez17

Napoleão Bonaparte. A Proclamação (Ato 1)

Talis Andrade

auto coroação de napoleão.jpg

 

 

A ninguém devo       

   o cetro de imperador

General do povo       

   me coroei com as próprias mãos

Os fiéis soldados       

   me consideram irmão

Os humildes e miseráveis       

    me chamam de pai

Tenho a ovação       

    das multidões 

 

 

---

Ilustração: Coroação de Napoleão Bonaparte (detalhe),

por Jacques-Louis David

14
Set17

O VENTO É SEMPRE ÁSPERO, por Adriano Marcena

Talis Andrade

adriano-marcena.jpg

 Adriano Marcena

 

Talis Andrade é amigo das palavras, primo da aliteração, sobrinho da alegoria, cunhado da versificação. Poeta-ser é conceber o desabafo da carne, músculos e entranhas. Talis não é inofensivo e sua receita po-ética não aceita adoçante, quando mais açúcar! É um poeta movido pela aspereza do diabetes simbólico recriando seu interior de homem-solitário escaldado pela vida boêmia literária. Fácil é perceber a fisgada certeira com que ele consegue apreender o fígado da poesia, o baço da palavra, a cefaléia da pontuação. Talis também é meio grego, não grego-romano, mas grego-pernambucano, pois ali está o cheiro dos trópicos apri- sionados ou escaneados no papel inofensivo. Todo poeta é covarde pelo simples fato de oprimir as folhas em branco diante de si. Entre a dor e o poeta reside a poesia, entre Talis e a vida existe o amor por uma leveza que se aprisiona ao vento, cortando as amantes, serrando os ouvidos, sufocando as virilhas, apalpando os desejos, esses crudelíssimos desejos, perdidos em monólogos madrugais. Entre o poeta e a dor o vento sopra como se pusesse os nervos para bailarem suavemente: o poeta é um nervo que não suporta nem o prenúncio do vento. “A flor do sexo/ a lascívia/ a amante entrando quarto a dentro dos antigos olhos/ a faca fria/ a bala quente/ a ronda dos ricos/ a mulher que tropeça pela casa/ os gritos que não nos deixam em paz/ a profana recordação/ o enforcado da rainha preso à teia da ilusão…” Talis quebra tabus grudados em poetas. De sua pena contemporânea desnuda-se, diante de nossas retinas, o próprio enforcado: suas artérias expostas à brisa consoladora, suas vísceras se decompõem, se reciclam em água humana, mas por trás do enforcado resiste e triunfa o poeta vivo, o poeta nu, o poeta do pó das letras, o poeta da dor sincera que finge existir, o poeta tentando encontrar o tinteiro e o mata-borrão para se defender, atemorizado, da leveza delicada da filha mais jovem do vento que lhe excita em pleno sol do meio-dia. Todo grande poeta tem medo do vento. Talis, é bom saber que você só está enforcado no livro. Sobre algum mangue soterrado, parabenizo pelo livro, poeta!

 

capa_o_enforcado_da_rainha.jpg

 

 

 

 

 

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