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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

11
Set17

PRECE

Talis Andrade

Pantokratir século VI um dos ícones mais antigo

 

Ó Senhor envia

um dos anjos

de tua corte celestial

para indicar

o verdadeiro caminho

a via real

 

Não me deixes perdido

Não permitas

faça desta vida

um caminhar

sem sentido

 

 

----

Ilustração: Pantokrator, Século VI, um dos mais antigos ícones de Jesus
 


18
Ago17

REZA POR CHUVA

Talis Andrade

Seca..jpg

 

 

Uma folha seca

em uma seca árvore

no Sertão

 

Uma leve brisa

te tange

para longe

 

E vás rolando

pelo chão

até que a terra

te cubra

 

Se existe outra vida

da terra ressurjas

Da terra ressequida

que espera a chuva

 

 

19
Jul17

A SENTIDA VIDA

Talis Andrade

 

 

 

fcogoitia.jpg

 

 

Pensava a vida       

fosse sentida       

na provação       

dos contrários       

 

A dor a tristeza       

intentos necessários       

experimentação       

para o corpo       

sentir a intensidade       

de um desejo         

 

Esperava       

do ensejo       

de um momento feliz       

tirar o provento       

benfazejo         

 

Hoje sei a tristeza       

uma doença de nascença      

Hoje sei a tristeza       

um estado de ser 
 
 
 

13
Jun17

O VERMELHO E O CINZA

Talis Andrade

Carl Heinrich Bloch   The Raising of Lazarus.jpg

 

--

Por longínquo caminho

no silêncio do túmulo            

o que Lázaro viu             

as marcas da cruentação

ou do vermelho enxofre             

no branco linho             

a enfaixar o corpo

 

O que Lázaro viu             

o fúnebre cortejo             

de uma procissão            

de esqueletos             

em dia de finados

O que Lázaro viu             

no infinito campo

embaçadas figuras

como acontece             

ao irmão boi             

resignado à sina             

de pastagens             

em tons cinzas

 

Contenta a Lázaro             

nesta segunda passagem             

tudo recomece             

donde o fio             

da vida se partiu             

ou apenas tem olhos             

para o imaginário             

o que poderia ter sido             

e não foi A intentada             

excitante aventura             

por lendárias terras             

visagem de um mundo             

paradisíaco inatingível               

 

No silêncio do túmulo             

preferiria Lázaro             

a viagem sem volta             

por um túnel de luz             

o corpo arrebatado             

sobre as nuvens             

o corpo vestido de vazio             

o corpo livre             

do amargor da carne               

 

Nesta segunda passagem             

que espera Lázaro             

o açoite da nudez             

de João Batista             

a nudez contida             

em uma vestimenta             

de pêlos de camelo             

o cinto de couro             

em volta dos rins             

garroteando os impulsos             

convulsivos repulsivos               

 

Que espera Lázaro             

o dom da palavra

a língua de fogo

coriscando o ar             

como um raio             

a palavra que incendeia

e queima

a palavra que amaldiçoa             

e fere             

mais afiada             

que o gume             

de uma cica             

 

Que espera Lázaro             

a ofuscante nudez de Davi             

a dançar e cantar             

triunfante ao som             

de harpas e cítaras             

de tamboris e trombetas             

de sistros e síbilos             

pelas ruas de Jerusalém             

para ser ungido rei               

 

Simplesmente seguir             

uma nova vida

em vestes magnificentes             

de púrpura e ouro             

gozar os festins             

o vinho do delírio             

o deleite das dançarinas             

na dança pastoril             

a posse febril             

de um corpo de mulher             

o corpo suave promessa             

de orgasmo e paz               

 

Que deseja Lázaro             

se nenhum livro             

nenhuma carta             

nenhum parente             

nenhum amigo             

jamais registrou             

uma palavra sua               

 

De Lázaro apenas             

se sabe vivia             

com duas irmãs             

e depois de quatro             

dias no túmulo             

aparece Jesus e chama             

- Lázaro             

vem para fora               

 

Jesus ordenou             

Lázaro             

fosse libertado             

das faixas             

e retirado o lenço             

que lhe cobria o rosto  

 

Para todo sempre

as marcas da cruentação

do vermelho enxofre             

no branco linho             

a enfaixar o corpo  

 

Lázaro não estava livre

da morte

De Lázaro o milagre             

de uma segunda vida 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

---

Ilustração: A Ressureiçõ de Lázaro, por Carl Heinrich Bloch 

09
Abr17

DA RESIGNAÇÃO

Talis Andrade

Um cigarro

depois do outro

Uma mulher

depois da outra

Entre taças de vinho

mil copos de chope

fui desfiando a vida

nos motins dos palácios

nas quermesses dos puteiros

sem medo dos espias

e dos mensageiros

das notícias ruins

 

Não faltarão juízes

o cochicho dos delatores

o testemunho invejoso

- Irresponsavelmente desperdiçou

fortuna e sinecura

em bares e vaginas

  

Os homens enterrem

botijas de ouro

As mulheres envelheçam

longe de mim  

Que me arranjo sozinho 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


06
Abr17

O HOMEM COM QUEM NINGUÉM SE PREOCUPA  

Talis Andrade

 

velhice- nery.jpg

 

 

A vida uma encenação

farsa que represento

sem a mínima vocação -

o reprisado enredo

de escapar ileso 

 

A vergonha o medo

me vejam

driblando a fome

me julguem

pelos (ul)trajes  

 

a bata

de professor

suja de giz  

 

o lavado terno

a gravata

em que se enforca

o funcionário público  

 

o engomado terno

passado a ferro

das entrevistas

solenidades e festas

dos jornalistas  

 

“O trabalho enobrece” -

a frase gravada na porteira

dos campos de concentração

 

Se Hitler estava certo

o trabalho liberta

enriquece e engrandece

 

Que aluno lembra o nome de um professor

Quem memoriza o rosto de um servidor

no birô de uma repartição 

Quem realmente se preocupa o ancião

termine nas filas dos bancos

para receber o mínimo salário piso

pago pela previdência

O ancião inciso arraste a aposentadoria

como uma humilhante penitência

O ancião espere a morte

nas filas dos hospitais

quem realmente se preocupa 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

 

---

Ilustração: Velhice, por  Emmanuel Nery 

06
Abr17

MONÓLOGO

Talis Andrade

 

Os atos os fatos       

que se sucedem

monótono jogo

previsível trama

treinados gestos

mambembes (re)

iterados ad infinitum       

no mercado público       

no coreto da praça       

no picadeiro do circo

      

insosso espetáculo

monótono drama       

que se repete       

sem uma razão de ser 


chagall_circus1.jpg 

 

Ilustração: Circo, por  Chagall

05
Abr17

O DUPLO

Talis Andrade

narcisse-incomparable-1971 leonor fini.jpg

 

 

Um espetáculo a vida

um espetáculo encenado

por um único ator

 

Um espetáculo visto de graça

Um espetáculo visto na praça

por um único espectador 


 

 

---

Ilustração: Narciso Incomparável, por Leonor Fini

 

 

 

 

 

05
Abr17

SUEIRA

Talis Andrade

A vida uma encenação

a cada representação

se sinto dor eu vivo  

 

A felicidade uma idealização

do jardim das delícias

o reino encantado de Pasárgada

o faz-de-conta a vida

um conto de fadas  

 

A vida uma encenação

um estropio o corpo

consumido no trabalho

repetitivo e cansativo 


 

Hieronymus_Bosch_ O Jardim das Delícias Terranas.

 Ilustração: O Jardim das Delícias Terrenas, painel central, detailhe,por Jheronimus Bosch 

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