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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

30
Mar17

CINEMA MUDO

Talis Andrade

CINEMA

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Na roda da fortuna

revejo coisas passadas

cenas de um mundo

esquecido mundo

povoado de sombras  

 

Cenas que passam       

em preto & branco       

a ceifa a peste      

o fogo dizimando       

as aldeias e a floresta  

 

Índios vestidos      

coa a camisa de fantasma

pajés a profetizar

no êxtase das Santidades

a revolução dos Antonios

nos vales do Jaguaripe e Canudos

o florescer da Rosa Mística

na terra livre

da corrupção

 

Cenas mudas      

de negros escravos

zumbis mal-assombros

arrastando correntes  

nas escuras senzalas    

 

Cenas de um filme      

em preto & branco      

de capa e espada

góticos sobrados

estalagens malditas

em que se bebe rum

pelas almas dos capitães

dos navios piratas

 

Pelas ruas do Recife

revejo frades e padres

conspirando pela liberdade       

Frei Caneca caminhando

com o baraço dos enforcados         

 

Frente ao espelho       

por trás do espelho

visagens vão passando

Embaçados esboços

máscaras trans

figurados rostos       

vão passando       

Rostos infantis

envelhecidos pelo tempo

Vagantes almas

misturadas com os viventes       

em uma dança de cadáveres

Rastejantes sombras

dos governantes quadrúpedes       

que roubam a quadra do tempo

Perdidas almas      

dos salteadores de estrada       

cobradores de impostos

fiscais de justiça

gerentes de banco

contadores de juros

vão passando       

 

Revejo coisas passadas

coloridas imagens

lindas paisagens  

lindas meninas

dançando pastoril       

no céu de Olinda       

os corpos girando

montados em cavalinhos

cavalinhos de madeira

pintados de encarnado

pintados de azul       

em um carrossel

rodando rodando       

nas festas de rua

 

Rostos vão passando

lindas fêmeas com quem fiz sexo       

lindas mulheres com quem       

não fiz sexo

perturbadores rostos

girando girando       

em um carrossel       

de um projetor de slides

os rostos das mulheres

para quem mandei rosas

as mulheres para quem escrevi

versos       

as mulheres que amei

nos becos e ladeiras

nos festejos dos santos

nas ruas tortas       

as mulheres que deixei

em um mundo flutuante

em torno do pelourinho

as mulheres que deixei

na roda dos expostos

nos conventos de Olinda       

 

Cenas que passam       

na roda das três fiandeiras

sem mostrarem      

o inenarrável começo         

 

o incompreensível fim 
 


 

 

---

Ilustração: "Carrossel no Carnaval", por Linda Mears

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