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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

14
Set17

O VENTO É SEMPRE ÁSPERO, por Adriano Marcena

Talis Andrade

adriano-marcena.jpg

 Adriano Marcena

 

Talis Andrade é amigo das palavras, primo da aliteração, sobrinho da alegoria, cunhado da versificação. Poeta-ser é conceber o desabafo da carne, músculos e entranhas. Talis não é inofensivo e sua receita po-ética não aceita adoçante, quando mais açúcar! É um poeta movido pela aspereza do diabetes simbólico recriando seu interior de homem-solitário escaldado pela vida boêmia literária. Fácil é perceber a fisgada certeira com que ele consegue apreender o fígado da poesia, o baço da palavra, a cefaléia da pontuação. Talis também é meio grego, não grego-romano, mas grego-pernambucano, pois ali está o cheiro dos trópicos apri- sionados ou escaneados no papel inofensivo. Todo poeta é covarde pelo simples fato de oprimir as folhas em branco diante de si. Entre a dor e o poeta reside a poesia, entre Talis e a vida existe o amor por uma leveza que se aprisiona ao vento, cortando as amantes, serrando os ouvidos, sufocando as virilhas, apalpando os desejos, esses crudelíssimos desejos, perdidos em monólogos madrugais. Entre o poeta e a dor o vento sopra como se pusesse os nervos para bailarem suavemente: o poeta é um nervo que não suporta nem o prenúncio do vento. “A flor do sexo/ a lascívia/ a amante entrando quarto a dentro dos antigos olhos/ a faca fria/ a bala quente/ a ronda dos ricos/ a mulher que tropeça pela casa/ os gritos que não nos deixam em paz/ a profana recordação/ o enforcado da rainha preso à teia da ilusão…” Talis quebra tabus grudados em poetas. De sua pena contemporânea desnuda-se, diante de nossas retinas, o próprio enforcado: suas artérias expostas à brisa consoladora, suas vísceras se decompõem, se reciclam em água humana, mas por trás do enforcado resiste e triunfa o poeta vivo, o poeta nu, o poeta do pó das letras, o poeta da dor sincera que finge existir, o poeta tentando encontrar o tinteiro e o mata-borrão para se defender, atemorizado, da leveza delicada da filha mais jovem do vento que lhe excita em pleno sol do meio-dia. Todo grande poeta tem medo do vento. Talis, é bom saber que você só está enforcado no livro. Sobre algum mangue soterrado, parabenizo pelo livro, poeta!

 

capa_o_enforcado_da_rainha.jpg

 

 

 

 

 

12
Set17


 
 
 
 
 DA LEVEZA DE SER LIVRE

Talis Andrade

matisse_icaro.jpg

 

Vencer o medo de ver       

e conhecer       

Vencer o medo       

de pular da cama       

para enfrentar a multidão       

Deixar a prisão      

 a casa       

o caixão       

Desatar os laços

quebrar as alianças

com os inimigos       

quebrar os angustiantes elos       

com os governantes       

e sair por aí        

 

Livre       

pelas ruas       

Livre       

dos flagelos do mundo       

Livre       

das contaminações       

dos ídolos       

Livre       

da prostituição       

Livre       

do que é sufocado       

e do sangue       

Livre       

subir as escadarias       

do templo       

dançando e cantando       

louco de Deus       

bêbado de Deus       

dançando e cantando       

na leveza       

na inteireza de ser

 

 

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Ilustração: Ícaro, Henri Matisse
 

12
Set17

MEA-CULPA

Talis Andrade

homem flor poesia.jpg

 

 

              

 

Eu pecador             

confesso             

sou apenas um homem comum             

que traz consigo

uma flor 

 


 

12
Set17

DIA DE FINADOS

Talis Andrade

o juizo final miguel angelo .jpg

 

 

 

Tenho a convicção

as indulgências

não serei uma alma penada

 

permanecerei lembrado

nas orações

 

para que meu caminho


continue iluminado

pelo Pai nosso

que está no Céu

 

 

---

Ilustração: O Juízo Final, Miguel Ângelo


 
 
 


12
Set17

Limbo

Talis Andrade

inferno pintura portuguesa.jpg

 

Pelo tempo infinito       

eu permaneça       

protegido       

das águas escumantes       

que incharam o corpo       

do poeta Sheley       

das águas viscosas       

venosas       

que apodreceram       

Tchaikovsky         

 

Protegido permaneça       

da sina de Pilatos       

morto       

afogado       

em invisível taça       

de vinho morno       

com gosto       

de chumbo       

e posca         

 

Protegido das chamas       

que consomem as almas sebosas       

dos possuídos por Lúcifer

os filhos da perversidade

os governantes corruptos

os legisladores vendidos

os juízes iníquos

os escravocratas       

que submetem o povo       

na fome e no afogo

os que transformam o mundo

em uma cavidade tenebrosa

 

 

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Ilustração: Inferno. Anônimo. Século XVI. Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa.

 

 

 

11
Set17

PRECE

Talis Andrade

Pantokratir século VI um dos ícones mais antigo

 

Ó Senhor envia

um dos anjos

de tua corte celestial

para indicar

o verdadeiro caminho

a via real

 

Não me deixes perdido

Não permitas

faça desta vida

um caminhar

sem sentido

 

 

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Ilustração: Pantokrator, Século VI, um dos mais antigos ícones de Jesus
 


11
Set17

O ANDARILHO

Talis Andrade

o bom pastor ao redor do seculo III jesus.jpg

O mundo seria diferente

se toda gente tirasse os sapatos

sentisse a suavidade da terra

revestida de verde

a verde relva dos campos  

 

O mundo seria diferente

se toda gente sentisse

a suavidade das finas areias da praia

macias areias lavadas pelas espumantes ondas  

 

O mundo seria diferente

se toda gente andasse

os pés descalços

pela terra nua

como andou Jesus 
 

 

 

 

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Ilustração: O Bom Pastor, uma das mais antigas pinturas de Jesus ao redor do Século III

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