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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

29
Ago17

SEM TETO

Talis Andrade

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Quem reside em casa alugada

precisa manter os pertences embalados

roupas livros

discos filmes

coisas sem valia comercial

que se leva de moradia em moradia

uma andança de rua em rua

sem dia marcado

sem lugar predileto

sem cadeira de balanço

para o descanso

que se alcança

na hora final

 

Para a última mudança

o último chão

também precisa manter

o corpo embalado

para ser colocado

em um caixão

 

 

---

Ilustração: Despejo, por Elena Ospina

 

29
Ago17

CEMITÉRIO DE ELEFANTES

Talis Andrade

cemiterio-de-elefantes.jpg

 

 

Não tenho mais volta

que esqueci os caminhos

De que adianta um mapa

das ilhas bem-aventuradas

se tudo está mudado

 

Seguir em frente

nada é como antes

Seguir em frente

não há revolta

nem meia-volta

Seguir em frente

por caminhos diferentes

por mares nunca dantes

navegados

Seguir em frente

sem desamor

nem desfeita

das coisas feitas

nem amargor

do desencantado

Seguir em frente

pelo gosto

do nunca visto

vale mais que

o dessabor

de um café requentado

 

Morrer por morrer

prefiro a incerteza

da louca visão

de distante oásis

o verdejante oásis

da fonte cantante

que o monótono

descanso

em um cemitério

de elefantes

 

 

---

Ilustração: Cemitério de Elefantes Domésticos, por Luiz Alberto Borges da Cruz

 

29
Ago17

INFÂNCIA

Talis Andrade

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Menina vamos brincar de boneca

de médico e médica

Ai menina no rito de passagem

na doce aparência da adolescência

vamos aprender o ABC do amor

brincar de se esconder

em encantados esconderijos

 

Ai se a vida fosse uma brincadeira

você não perderia esse jeito de menina

o corpo adolescente em flor

Ai menina não deixe o tempo correr

 

--

Ilustração Balthus

 

 

18
Ago17

REZA POR CHUVA

Talis Andrade

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Uma folha seca

em uma seca árvore

no Sertão

 

Uma leve brisa

te tange

para longe

 

E vás rolando

pelo chão

até que a terra

te cubra

 

Se existe outra vida

da terra ressurjas

Da terra ressequida

que espera a chuva

 

 

18
Ago17

O REI LEÃO

Talis Andrade

leao .jpg

 

 

Deitado na sombra da árvore

o velho leão lembra os tempos de caça

Lindas gazelas pastavam na verde planície

 

Na verde planície

que as areias do deserto

empurradas pelo vento

foram cobrindo

 

A pata doída o velho leão

sente não tem força

para afastar um enxame de moscas

que lhe sugam as feridas

 

 

 

 

15
Ago17

 O CAMINHO PARA ASSIS

Talis Andrade

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Preciso fugir

do presídio

que construí

neste enfermo

mundo:

O suplício

de um suicídio

lesmo e doloroso

nos ermos campos

do abandono

e do medo

 

Preciso encontrar a paz

o amor

Sentir quanta alegria

no irmão Sol

quanta poesia

na irmã Lua

 

Andarilho descalço

seguir pelos caminhos

da irmã Pobreza

Na poeira das estradas

nos pedregulhos

no adusto chão

descobrir a beleza

da natureza

a beleza intrínseca

às coisas simples

 

Sentar na beira de um regato

e ouvir o silêncio dos peixes

Quedar extático

ante a presença de Deus

no quebradiço arbusto

e na fúria dos raios

 

Descalço andarilho

pelos apertados caminhos

da irmã Pobreza

a esperança de possuir

a leveza dos pássaros

a fiel mansidão

de um boi de cambão

amar o próximo como um irmão

seguindo o exemplo

de São Francisco de Assis

despojado das vestes de seda

foi mais feliz que um rei 
 
 
 


 

 

 

__

Ilustração: "Casamento de São Francisco com a Senhora Pobreza", por Stefano di Giovanni (ou Sasseta), período gótico italiano (1392-1450)
 

 

 

 

 

12
Ago17

TEMPO FUTURO

Talis Andrade

nau dos insensatos.jpg

Fugindo do passado       

tempo sumido       

perdido tempo       

somos eternos viajantes       

eternos errantes à procura       

de um porto seguro       

no futuro 


12
Ago17

A VIA REAL

Talis Andrade

caminho.jpg

Somos errantes       

eternos andantes       

de uma alongada      

curta jornada       

 

Somos sozinhos      

eternos errantes       

nunca saberemos       

entre tantos caminhos       

se estamos percorrendo       

a via real         

 

Na peregrinação para Lourdes       

Mariazell Santiago de Compostela       

pelos caminhos de Jerusalém       

continuaremos sozinhos       

sempre esperando       

o convite amigo Vem       

Vem comigo

 

 

 

 
 
 
 


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