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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

10
Abr17

 O CORPO MEDIDO

Talis Andrade

Cadáver esquisito.jpg 

 

Meu corpo não termina       

nas partes que consigo atingir

      

Meu corpo não termina       

nas partes que você toca       

além do que posso sentir

        

Meu corpo não termina       

nos limites do amor       

o amor que tuas mãos percorrem       

 

Meu corpo não termina       

no corte de pano medido       

para a costura da mortalha         

 

Meu corpo não termina       

no cadáver posto no ataúde

      

Meu corpo se estende       

por desconhecidas terras       

longe das feras       

longe do alcance       

dos carniceiros vermes 

 

Meu corpo não termina       

nas partes que você toca       

além do que posso sentir  
 
 
 


 

---

Ilustração: Cadáver Esquisito, por Héctor Pineda, com a colaboração de James Knowles

 

 

10
Abr17

DA ALIENAÇÃO

Talis Andrade

passo de ganso nazismo.jpg

 

No passo de ganso       

os olhos cegos

o que alcanço

 

No passo de ganso       

o que faço

dos esconsos

 

No passo de ganso

a alienação

a continência

a submissão

 

No passo de ganso      

o desatino de uma existência

sem descanso 


09
Abr17

OS MUROS DE BETSÃ

Talis Andrade

Exibido corpo no palco

para os aplausos os escarros

Corpo suspenso nos muros de Betsã

corpo exposto às moscas

velado corpo no catafalco  

 

Emparedado corpo

não pode sair da tumba

para um solitário chope 


 

 

09
Abr17

OS MORTOS VIVOS

Talis Andrade

Cicero dias.jpg

Mãos como garras

me arrancam as vestes

Sou o desvalido

Um cão perdido

Os confrades fecharam as portas

que não pertenço a nenhum partido

a nenhuma organização secreta

nem ao sindicato do crime  

 

Nenhum conhecido reclama o meu corpo

esquartejado corpo

as vísceras espalhadas

pelos ruas e avenidas

do Recife  

a cidade infame

dos mortos vivos 


 

 

---

Ilustração: Composição com estátua e monstro, por Cicero Dias

09
Abr17

DA RESIGNAÇÃO

Talis Andrade

Um cigarro

depois do outro

Uma mulher

depois da outra

Entre taças de vinho

mil copos de chope

fui desfiando a vida

nos motins dos palácios

nas quermesses dos puteiros

sem medo dos espias

e dos mensageiros

das notícias ruins

 

Não faltarão juízes

o cochicho dos delatores

o testemunho invejoso

- Irresponsavelmente desperdiçou

fortuna e sinecura

em bares e vaginas

  

Os homens enterrem

botijas de ouro

As mulheres envelheçam

longe de mim  

Que me arranjo sozinho 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


08
Abr17

SEM TETO

Talis Andrade

Elena despejo violento.jpg

 

 

 

Ando de casa

em casa

sem plantar uma árvore

sem possuir um espaço

para meus livros

um canto preferido

para meu descanso  

 

Ando de rua

em rua

sob a ameaça

dos despejos

da justiça iníqua  

 

Pago um alto preço

por não ter uma árvore

uma árvore

como sombra 
 


 

 

06
Abr17

O HOMEM COM QUEM NINGUÉM SE PREOCUPA  

Talis Andrade

 

velhice- nery.jpg

 

 

A vida uma encenação

farsa que represento

sem a mínima vocação -

o reprisado enredo

de escapar ileso 

 

A vergonha o medo

me vejam

driblando a fome

me julguem

pelos (ul)trajes  

 

a bata

de professor

suja de giz  

 

o lavado terno

a gravata

em que se enforca

o funcionário público  

 

o engomado terno

passado a ferro

das entrevistas

solenidades e festas

dos jornalistas  

 

“O trabalho enobrece” -

a frase gravada na porteira

dos campos de concentração

 

Se Hitler estava certo

o trabalho liberta

enriquece e engrandece

 

Que aluno lembra o nome de um professor

Quem memoriza o rosto de um servidor

no birô de uma repartição 

Quem realmente se preocupa o ancião

termine nas filas dos bancos

para receber o mínimo salário piso

pago pela previdência

O ancião inciso arraste a aposentadoria

como uma humilhante penitência

O ancião espere a morte

nas filas dos hospitais

quem realmente se preocupa 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

 

---

Ilustração: Velhice, por  Emmanuel Nery 

06
Abr17

MONÓLOGO

Talis Andrade

 

Os atos os fatos       

que se sucedem

monótono jogo

previsível trama

treinados gestos

mambembes (re)

iterados ad infinitum       

no mercado público       

no coreto da praça       

no picadeiro do circo

      

insosso espetáculo

monótono drama       

que se repete       

sem uma razão de ser 


chagall_circus1.jpg 

 

Ilustração: Circo, por  Chagall

05
Abr17

O DUPLO

Talis Andrade

narcisse-incomparable-1971 leonor fini.jpg

 

 

Um espetáculo a vida

um espetáculo encenado

por um único ator

 

Um espetáculo visto de graça

Um espetáculo visto na praça

por um único espectador 


 

 

---

Ilustração: Narciso Incomparável, por Leonor Fini

 

 

 

 

 

05
Abr17

SUEIRA

Talis Andrade

A vida uma encenação

a cada representação

se sinto dor eu vivo  

 

A felicidade uma idealização

do jardim das delícias

o reino encantado de Pasárgada

o faz-de-conta a vida

um conto de fadas  

 

A vida uma encenação

um estropio o corpo

consumido no trabalho

repetitivo e cansativo 


 

Hieronymus_Bosch_ O Jardim das Delícias Terranas.

 Ilustração: O Jardim das Delícias Terrenas, painel central, detailhe,por Jheronimus Bosch 

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