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A Poesia Desconhecida

A Poesia Desconhecida

31
Mar17

ILUDIÇÃO

Talis Andrade

 

 

 

paradise-chagall paraíso.jpg

 

O prazer uma ilusão             

A ilusão possui moradia             

no país dos sonhos               

 

Com suas porteiras             

e fronteiras             

a busca do prazer             

nos desafia             

a devanear             

pela vida inteira               

 

a devanear             

o que não se pode

ter 


 

 

---

Ilustração: Paraíso, com Adão e Eva, por Chagall

30
Mar17

CINEMA MUDO

Talis Andrade

CINEMA

carousel-at-the-carnival-linda-mears.jpg

 

Na roda da fortuna

revejo coisas passadas

cenas de um mundo

esquecido mundo

povoado de sombras  

 

Cenas que passam       

em preto & branco       

a ceifa a peste      

o fogo dizimando       

as aldeias e a floresta  

 

Índios vestidos      

coa a camisa de fantasma

pajés a profetizar

no êxtase das Santidades

a revolução dos Antonios

nos vales do Jaguaripe e Canudos

o florescer da Rosa Mística

na terra livre

da corrupção

 

Cenas mudas      

de negros escravos

zumbis mal-assombros

arrastando correntes  

nas escuras senzalas    

 

Cenas de um filme      

em preto & branco      

de capa e espada

góticos sobrados

estalagens malditas

em que se bebe rum

pelas almas dos capitães

dos navios piratas

 

Pelas ruas do Recife

revejo frades e padres

conspirando pela liberdade       

Frei Caneca caminhando

com o baraço dos enforcados         

 

Frente ao espelho       

por trás do espelho

visagens vão passando

Embaçados esboços

máscaras trans

figurados rostos       

vão passando       

Rostos infantis

envelhecidos pelo tempo

Vagantes almas

misturadas com os viventes       

em uma dança de cadáveres

Rastejantes sombras

dos governantes quadrúpedes       

que roubam a quadra do tempo

Perdidas almas      

dos salteadores de estrada       

cobradores de impostos

fiscais de justiça

gerentes de banco

contadores de juros

vão passando       

 

Revejo coisas passadas

coloridas imagens

lindas paisagens  

lindas meninas

dançando pastoril       

no céu de Olinda       

os corpos girando

montados em cavalinhos

cavalinhos de madeira

pintados de encarnado

pintados de azul       

em um carrossel

rodando rodando       

nas festas de rua

 

Rostos vão passando

lindas fêmeas com quem fiz sexo       

lindas mulheres com quem       

não fiz sexo

perturbadores rostos

girando girando       

em um carrossel       

de um projetor de slides

os rostos das mulheres

para quem mandei rosas

as mulheres para quem escrevi

versos       

as mulheres que amei

nos becos e ladeiras

nos festejos dos santos

nas ruas tortas       

as mulheres que deixei

em um mundo flutuante

em torno do pelourinho

as mulheres que deixei

na roda dos expostos

nos conventos de Olinda       

 

Cenas que passam       

na roda das três fiandeiras

sem mostrarem      

o inenarrável começo         

 

o incompreensível fim 
 


 

 

---

Ilustração: "Carrossel no Carnaval", por Linda Mears

29
Mar17

FEIRA DOS MILAGRES

Talis Andrade

Maldito bendito corpo

contido em uma cela

estendido em uma cama

embalsamado

em uma redoma de vidro

 

Contido medido corpo

de atormentado asceta

temeroso do mundo

dos pecados imundos

da indomada carne  

 

Santificado corpo

espostejado corpo

exibido nos açougues

para ser vendido

como lembrança  

 

Santo corpo de Santa

Isabel da Hungria

depois de morto

arrancaram as unhas

cortaram os cabelos

os bicos dos seios  

 

Corpo lavado

rezado e velado

de São Tomás de Aquino

a cabeça decapitada

o corpo esburgado

os ossos polidos

vendidos a varejo

para que as ricas igrejas

príncipes e reis

pagassem o preço

exorbitante preço

por tão raras

caras relíquias
 


 

Corpo cozinhado

no vinho no vinagre

e perfumada água

corpo cozinhado

para o ágape

 

Maldito corpo

bendito corpo

para ser comido

 

por uma Terra

Sem Mal

no banquete

das Santidades

 

O corpo comido

no frenesi

dos índios

em transe

 

Índios escravos

perseguidos

pelo Santo Ofício

e o rei de Portugal

santidades.gif

 

28
Mar17

REBIS

Talis Andrade

 

rebis .jpg

 

 

 

 

Caminho curvado

como um condenado

como se fosse

proibido viver

o milagre da vida

em sua plenitude

 

como se apenas

fosse permitido

um escasso amor

um escasso sexo

como se estivesse

obrigado a andejar

apenas metade

de um caminho  

 

Caminho curvado

como um condenado

o coração vazio

o vazio de me sentir

incompleto

como se faltasse

um lado do corpo  

 

Caminho curvado

eu e uma societária

dor fantasma

dor descontinuada

alucinatória percepção

de uma parte amputada

como punição divina  

 

2  

 

Homem ou fêmea

o que fazer do corpo

quando se sente o corpo

como um peso morto  

 

Homem ou fêmea

daimon demônio

o oposto posto

como continuação

do contrário

 

3

 

O que fazer do corpo

que se torce retorce

nos estertores da morte

os tremores idênticos

aos do orgasmo  

 

Homem ou fêmea

o que fazer do corpo

quando me sinto

dividido em dois

 

um lado vivo

um lado morto  

 

4  

 

O que fazer do corpo

quando se tem

uma parte doente

 

sofrida parte

limitada a todo

o lado esquerdo

como se um raio

lançado por Zeus

tivesse me partido

ao meio

 

como se um raio invisível

tivesse me dividido

uma metade podre

uma metade sensível  

 

O que fazer

da parte cortada

apartada parte

jogada fora

 

parte contrária

feminina parte

perdida parte

carne carniça

sanguento pasto

para os urubus

 

fremente parte

parte partida

que se estorce

 

 

cortado rabo

o rabo largado

o rabo tremente

de uma lagartixa

que se debate

no asfalto quente 
 
 
 
 
 


 

 

23
Mar17

A CRIAÇÃO

Talis Andrade

árvore2 livro.jpg

 Um poema             

mensagem dos anjos             

Inspirada revelação               

 

Alma             

corpo             

sangue             

respiração               

 

Flor que se abre             

vôo de pássaro                   

                        no papel 


23
Mar17

DA ETERNIDADE

Talis Andrade

Nicoletta Ceccoli escrever menina poesia.jpg

 Um poema prossegue             

sua trajetória             

mesmo quando o poeta morre 
 


 

 

---

Ilustração Nicoletta Ceccoli 

22
Mar17

LEITURA

Talis Andrade

homem flor poesia.jpg

Se um poema não te exalta

não faz pensar             

não faz sofrer

não é Poesia             

 

Se um poema não te mata             

não te ressuscita             

não te transfigura    

não é Poesia               

 

Um poema clama pelo teu sêmen

sangue e lágrimas             

Um poema desnuda o corpo             

um poema desvela a alma 
 


22
Mar17

PROFISSÃO DE FÉ

Talis Andrade

livro pássaro.jpg

Nenhuma palavra substitui a vida

          

o que seria viver             

sem a magia da poesia

 

Das pedras     

     sem o cantar das águas

dos ventos

     sem o farfalhar                    

     das folhagens             

 

O mesmo destino dos pássaros             

quando uma pedra fere o vôo             

O mesmo destino das flores             

quando lhes tiram o perfume 
 


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